“Agora eu queria apresentar uma música de autoria de Dé, Bebel e Cazuza, chamada Eu Preciso Dizer que Te Amo. Bebel vai começar a cantar agora, por favor, não façam barulho no ambiente. Muito obrigado.” - Cazuza e Bebel Gilberto - Eu Preciso Dizer que Te Amo
Ao som de Gene Kelly com “Singing In The Rain” e depois de muito hesitar em começar ou não esse texto resolvi que já havia enrolado demais e parti para a ação.
No momento estou no meio do download de “Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias” o último disco de Vanessa da Mata, que nome meigo, não? É de se pensar, pelo menos no meu caso eu consigo fazer algumas ligações: adoro andar de bicicleta, apesar de o sedentarismo me dominar na maioria das vezes; bolos são sempre necessários, as comemorações de aniversário que me tem presente que o digam; já as outras alegrias eu posso dizer que é a ligação entre o simples pedalar da bicicleta e o saborear um delicioso bolo. Tá bom, o espírito gordo baixou na menina, mas é verdade, né?
Gene está no repeat e eu tinha imaginado um começo totalmente diferente para esse texto, mas já que ele criou pernas e surgiu quando precisou, devo logo explicar a que ele veio certo?
Eu tenho memória, muita na verdade. Costumo dizer que isso é muito bom e também muito ruim. Não guardo muitas das datas importantes, os dias mesmo, mas sei como aconteceram e quem sabe até porque aconteceram.
Lembro os olhares um pouco assustados de nós, hoje ex-alunos, no primeiro dia de aula na faculdade. Recordo também das 18h no metrô Brigadeiro, quando fui pegar uma camiseta customizada que havia prometido, para mim mesma, dar ao ex-namorado que nunca mereceu.
Ok, não são fatos que eu esqueceria facilmente, mas tem vários, claro que alguns brotam surpreendentemente “do nada” e eu só fico pensando quanto tempo passou e o quando eu aprendi com o que houve.
Além da memória, eu tenho a música, e isso, eu acho, torna a coisa um pouco estranha. Ou não? Na verdade, acho que essa necessidade por música a todo e qualquer, qualquer mesmo, momento, vem desde o fundamental; quando, durante as aulas, tínhamos caixinhas de som acima da porta azul da classe, tocando algo que hoje me parece Enya, ou ainda sons de água e passarinhos cantando. Como eu gostava daquilo, hoje quase não sei fazer nada sem música.
Desde que me entendo por gente, ouço uma infinidade de sons “diferentes”, fato que há tempos atrás me rendia uma imagem estranha. Só não posso negar que eu não ajudei com isso, quando ficava, durante o ensino médio, em uma das últimas carteiras, com a agenda e o discman, é isso mesmo, aquele aparelhinho generosamente grande, se comparado ao Ipod Shuffle - presente - que possuo atualmente. Aquele que, quando colocado na mochila, tinha que ser carregado com o maior cuidado para que o CD não pulasse e saísse riscado de mais um dia de uso. Passava a maior parte do tempo de algumas aulas escrevendo, e achava o máximo aquele em que se lia “Folha de S.P.” e a agenda rosa, cheia de adesivos e fotos impressas e anexadas às folhas com micro clipes, hora coloridos, hora dourados.
O mais marcante era Corinne, a inglesinha me acompanha com a sua voz doce há tempos. Tinha também Céu, o disco que eu pedi emprestado, gravei e passava horas na “Malemolência”, quando eu e a poliglota de cabelos bonitos, ficávamos balançando os braços no meio da sala de aula.
E quando descobri que o louro bonito e de olhos azuis – que pra mim era só mais um louro de olhos azuis – gostava de Kings Of Convenience? Passamos algumas horas discursando sobre as melhores músicas.
A nostalgia é parte de mim, saudades sem saudosismo.
Quando pequena, a avó paterna – saudade – morava na mesma casa em que moro até hoje, e dormia no quarto que hoje é meu. A cama tinha os pés virados pra porta, não muito, quase. A TV ficava onde hoje existe uma caixa de papelão esperando ser revirada, e o videogame logo a frente.
Lembro-me de “Donkey Kong” ao som de Guilherme Arantes, por causa de um trabalho de Educação Artística da sétima série. Eu gostava de “Terra, Planeta áááágua” ou “Foi tão bom te conhecer, tão fácil te quereeer...” e por aí vai, era um CD ao vivo, se não me falha a memória. Depois aparecia o Twister, e a Lara Croft – aquela de “Tomb Raider” – entre pulos e mergulhos, com aqueles cenários que me davam medo.
Após os controles, passando pela oitava série, lembro-me de Linkin Park, a amiga japa apresentou e eu quis, como primeira camiseta de banda, a deles. Foi no amigo secreto, eu pedi, e aquela camiseta preta me foi dada. A capa do “Meteora” estampada, eu a tenho até hoje, e claro, ela não cabe mais em mim.
Puddle Of Mudd – Blurry, a trilha sonora do primeiro romance, essa e outras que formaram o primeiro presente. Bastante digno, mas hoje guardado em algum lugar que eu sequer imagino.
Na sexta série foi a vez de Skank e de Acima do Sol, quando eu gravava as músicas do próprio rádio, e sempre tinha aquela vinhetinha no meio pra fazer propaganda e estragar a minha música.
Eu me lembro de sempre ouvir alguma reclamação pelo som alto e pelos fones, usados em horas inapropriadas.
Lembro-me da praia e de um violão, com uma música tema não muito boa para um casal, mas também vejo, como uma foto a primeira vez que a ouvi, e a ouvi dele, o clique, o tapa na cara me dizendo: “acorda!” e depois tive que esquecer quase tudo.
Mas eu lembro, como a melhor recordação de todas de Florence & The Machine, “my dog days were over”, ou eu achei que fosse. Eu lembro o sorriso, não da risada, mas sim um belo sorriso que faz derreter até hoje, e que surgiu em meio à luz e a surpresa da música.
Eu tenho tudo em mim, trilhas, barulhos, perturbações e até detalhes que poderiam, mas quem sabe não quereriam ter aparecido no texto.
Estranho, eu acabo de escrever, mas ainda insisto com outros detalhes que não chegaram a tempo do final do texto. Sabe como é, eu tenho memória, mas só quando ela quer aparecer.
Detalhe, eu tinha muito mais, só deixei o menos.