segunda-feira, 16 de maio de 2011

"Eu vezes você, quanto que dá?"

O dia havia começado estranho, ou na verdade nem tão estranho assim. Foi trabalhar a pé, coisa que não fazia há tempos e gostou de começar a manhã assim. Atrasada.

A paciência começa a ficar no limite à medida que os andares se aproximam do seu. Começou, trabalhou, procurou, pintou, arrumou.

Sua voz não estava lá essas coisas, gripe forte e garganta doendo. Fofocas em dia, até que uma pastilha a salvou, ou quase, da rouquidão.Mas ainda tinha a cabeça nas conversas e observações do dia anterior.Sentiu, daquela vez sentiu.

Falta, e na realidade falta de algo que ela nunca viveu. Curiosa e persistente, não se cansaria de ouvir sempre a mesma descrição, a mesma história e as mesmas impressões, da mesma maneira que não se cansaria daquelas fotos, vistas há algumas semanas.

O café já não fazia tanta diferença, o estômago não se importaria com mais alguns goles. Só precisava espantar o sono que sentia e detestava.

A véspera de sexta-feira não tirou aquilo da cabeça. De repente tudo se agitou, de onde veio tudo isso? Jamais. Quando ela se agita, tudo fica meio bagunçado, coisas a fazer, e-mails a enviar e
histórias pra montar. Como era possível surgir tanta afobação, de repente??

Acessou os as mensagens pouco mais cedo, respondeu o que devia e esperou.

Estranho esperar ansiosamente por algo que ela já desconfiava não ser de todo bom. Tinha lá suas esperanças, quem sabe a palpitação não teria um motivo, dessa vez? Não.

Seus e-mails sempre se dividem, ela e a amiga respondem tudo praticamente na mesma ordem, os espaços separam os assuntos.

Parece combinado. Dessa vez foi tudo junto e a cópia de uma conversa.

Ela leu cada linha, voltou e leu de novo. Alguns erros de digitação indicavam um teclado problemático. Precisou ler mais vezes o final da história, não era com ela. O que fazer?

“Sempre me pareceu fácil seguir depois de um relacionamento. Eu dizia que faria tudo para esquecer, e esquecia, ou no começo, fingia mesmo esquecer. Não sei de onde apareceu tanta ansiedade, ou sei, aqui dentro é tudo muito confuso e ao mesmo tempo tão certo.

Se eu disser que aquilo doeu, dá pra acreditar?Alguns milhares de quilômetros ainda me perturbavam e eu não consegui sair de tudo. Ainda não.

Não acreditei em histórias, foi ao vivo e, quando percebi que a recíproca estava ali, não quis, mas deixei.Quem sabe finalmente acontece? Quando?

Ainda, ainda, que palavra cretina! Transbordo em ansiedade e impaciência. Não quero mais nada e cansei de dizer que vou morrer de trabalhar para me livrar desses pensamentos. Mentira!

A coisa funciona um mês, dois meses e sigo assim. Uma hora tudo fica tenso e aí aquela loucura e vontade aparecem novamente. É bom ser independente? É ótimo, dá pra fazer o que quiser, mas e quando tudo se acalma? Quando você precisa voltar pra casa, e eu preferia morar sozinha, e quer ver um filme meigo e fechar a noite debaixo do cobertor, aquele de orelhas, mas não há nada disso. Como faz?

O meu relógio não acompanha, a hora passa, quando vai ser a certa? Não quero os mesmos assuntos, as mesmas declarações e os mesmos sms, previsibilidade tira meu ânimo.

Acho que vou trabalhar um pouco pra ocupar o espaço vago aqui dentro."

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