
É tarde, e nem o fato de ter que acordar daqui há mais ou menos quatro horas, acalmam a sua mente.
São pai e filha, e talvez pelo fato de se amarem tanto, muitos embates acontecem. Talvez pela distância de gerações, as opiniões soam tão controversas, e, na maioria das vezes até ofensiva. Pensam que se odeiam, mas, e se não for tudo isso? É realmente difícil tentar explicar isso em meio a gritos e lágrimas. Ok, ficou um pouco melodramático demais, né? Mas é exatamente isso.
A sala vira um ringue, a diferença é que os socos, pontapés e chutes, são trocados por gritos histéricos, acompanhados da aflição da mãe e do medo que o pai levante na fúria e se jogue para cima da caçula.
Que loucura, não? Mas quem é que nunca escandalizou dessa forma com os pais?
Talvez o fato de serem tão parecidos, apesar de tudo, ajude para que não se entendam. Pensam que se odeiam e jogam contra a cara do outro. Que raiva!
Burrice na maioria das vezes. Sabe que não seria tão complicado levar o pai na ‘maciota’, mas a vontade em bater de frente e fazer acontecer a sua opinião, assim, tão escancaradamente, prevalecem. Burra! As palavras da mãe nunca fizeram efeito. Que droga!
Nem com a irmã é possível se entender. Parece que não precisa da sua ajuda e não se importa em delatá-la na grande maioria das vezes. Cumplicidade zero.
Ela se tranca no quarto, só seu não há muito tempo, e chora mais que uma criança. Ele fica na sala, trocando de canal, assistindo ao noticiário noturno com aquela cara e o comentário direcionado à esposa: ‘viu o que elas pensam de mim? Que eu odeio elas...’ – a irmã mais velha lança um: ‘eu nunca disse isso, não fala por mim, eu jamais falei isso’.
O choque é grande, sabe? Deu vontade de sumir, dormir na casa da avó, que a aquela altura estaria na janela da sua casa dos fundo, tentando discernir dos gritos as palavras completas, para garantir que ninguém estivesse apanhando, de não ter nascido e, pra variar, se é que ela se importa, aquele sentimento de ‘pouts, que merda, não devia ter falado nada!’.
Amanhã, ou logo menos, é outro dia, e o pai não vai falar com ela e mais as outras mulheres da casa, mas não fará diferença. Lá em casa, quando o pai briga com uma o ditado é: ‘briguei com uma, odeio todas’.


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